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Atualizado em 19 DE fevereiro DE 2012 ás 13:29

Antonio Domingos Brescovit

Especialista em taxonomia e inventário de aranhas do Instituto Butantan fala do novo gênero, do Sisbio - Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade; da situação dos acervos do país, e atualiza os números sobre as perdas na coleção de aracnídeos do Instituto, em decorrência do incêndio que destruiu instalações e material de pesquisa da instituição, em 2010

POR LÍDICE OLIVEIRA
oliveira.lidice@gmail.com

Os pesquisadores brasileiros têm um grande desafio pela frente quando o assunto são os aracnídeos. Extenso e dono uma biodiversidade privilegiada, o Brasil ainda guarda muitas espécies de aranhas totalmente desconhecidas em seu território, à espera de descrição científica. Áreas do país como o Pantanal, o cerrado, a caatinga e o pampa ainda estão muito mal amostradas, afirma o pesquisador do Instituto Butantan e especialista em taxonomia e inventário de aranhas, Antonio Domingos Brescovit. “Pelo material estocado e o que existe descrito até o momento, posso dizer que ainda não atingimos 50% do conhecimento de nossa diversidade de aranhas”, reconhece Brescovit.

As aranhas que vivem no solo (serapilheira) são as menos estudadas, mas representam, ao mesmo tempo, uma fonte de boas novidades, diz o professor. Uma delas é a descoberta de um novo gênero da família Oonopidae, com 17 espécies e aparência que lembra a estranha criatura do Predador, filme cult de ficção científica de 1987. Não à toa, o novo gênero será batizado de Predatoroonops. Outras duas espécies vão homenagear o astro do filme, Arnold Schwarzenegger. “Apesar de ele estar meio em baixa no momento”, brinca o professor.

Brescovit abordará o tema “Biologia, diversidade, taxonomia e curadoria de coleções de Aranhas” em um minicurso, durante o 29º Congresso Brasileiro de Zoologia, que será realizado em Salvador, em março de 2012.

Os pesquisadores brasileiros têm um grande desafio pela frente quando o assunto são os aracnídeos. Extenso e dono uma biodiversidade privilegiada, o Brasil ainda guarda muitas espécies de aranhas totalmente desconhecidas em seu território, à espera de descrição científica. Áreas do país como o Pantanal, o cerrado, a caatinga e o pampa ainda estão muito mal amostradas, afirma o pesquisador do Instituto Butantan e especialista em taxonomia e inventário de aranhas, Antonio Domingos Brescovit. “Pelo material estocado e o que existe descrito até o momento, posso dizer que ainda não atingimos 50% do conhecimento de nossa diversidade de aranhas”, reconhece Brescovit.

Mecicobothryum baccai. A nova espécie de aranha tem o nome em homenagem ao biólogo Lauro Bacca

As aranhas que vivem no solo (serapilheira) são as menos estudadas, mas representam, ao mesmo tempo, uma fonte de boas novidades, diz o professor. Uma delas é a descoberta de um novo gênero da família Oonopidae, com 17 espécies e aparência que lembra a estranha criatura do Predador, filme cult de ficção científica de 1987. Não à toa, o novo gênero será batizado de Predatoroonops. Outras duas espécies vão homenagear o astro do filme, Arnold Schwarzenegger. “Apesar de ele estar meio em baixa no momento”, brinca o professor.

Brescovit abordará o tema “Biologia, diversidade, taxonomia e curadoria de coleções de Aranhas” em um minicurso, durante o 29º Congresso Brasileiro de Zoologia, que será realizado em Salvador, em março de 2012. Nesta entrevista, ele fala do novo gênero, do Sisbio – Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade, da situação dos acervos do país e atualiza os números sobre as perdas na coleção de aracnídeos do Instituto Butantan, em decorrência do incêndio que destruiu instalações e material de pesquisa da instituição, em 2010.

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Ciência e Cultura – Como o Sr. situa o Brasil no campo da taxonomia e curadoria de coleções de aranhas? O país tem avançado ou ainda se ressente de apoio nessas áreas?

Antonio Domingos Brescovit – O Brasil ainda apresenta um numero pequeno de acervos e de material estocado em coleções. Temos hoje cerca de 10 coleções com acervos representativos, no Norte, Sudeste e Sul do Brasil. Temos carência de acervos no Centro-oeste e Nordeste do Brasil. Obtivemos avanços, mas, em geral, as coleções que mais crescem são aquelas de estados onde há mais recursos e FAPs (Fundações de Apoio a Pesquisa) bem estruturadas e economicamente fortes.

Ciência e Cultura – Ainda há muita burocracia para coleta de material zoológico no Brasil? O Sr. considera que a legislação brasileira dificulta as pesquisas científicas sobre biodiversidade? O que precisa ser revisto, na sua opinião?

Antonio Domingos Brescovit –  Em geral a burocracia diminuiu e apesar de inúmeras reclamações em relação ao Ibama, temos tido sucesso com a maioria das solicitações e o Sisbio – Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade tem ajudado neste desempenho. Hoje está mais fácil trabalhar nas áreas fora dos parques nacionais (não protegidas) e mesmo nos Parques Nacionais, do que nos estaduais. Os estaduais e municipais têm insistido para que peçamos autorização do Ibama, quando hoje temos autorização do Sisbio e o Ibama fala claramente que os estados e municípios podem ser autônomos em relação a estas autorizações e facilitar as pesquisas. Mas, no geral, isto não está acontecendo e os estados têm dificultado bastante a entrada em suas áreas protegidas.

Ciência e Cultura – Em 2010, por ocasião do incêndio no prédio das coleções do Instituto Butatan, falou-se na perda de um acervo de 450 mil espécies, a maioria de aracnídeos. Quantos exemplares de aranhas do acervo foram efetivamente perdidos?

Antonio Domingos Brescovit – Na verdade, o maior desastre foi na coleção Herpetológica com mais de 85% do acervo perdido. Nosso acervo de aracnídeos era de mais de 500.000 exemplares, e de miriápodes com cerca de 10.000 exemplares. Nossas perdas foram bem menores e podemos dizer hoje que cerca de 30% a 35% do material total foi perdido. Mas não se pode dizer com certeza onde foram as maiores perdas. Sabemos que mais de 75% das migalomorfas (caranguejeiras) foram perdidas, assim como material de pequenas ordens como Schyzomida, Solifugae, Ricinulei, e outras foram totalmente perdidas. Já o material de escorpiões e miriápodes quase não foi atingido.

Ciência e Cultura – Quais as principais pesquisas que ficaram prejudicadas com a perda do material científico?

Antonio Domingos Brescovit – Em geral, todas as pesquisas taxonômicas (revisões e descrições de espécies novas) foram prejudicadas. Até hoje, os pesquisadores e alunos estão mal instalados e trabalhando com equipamento aquém do necessário para as pesquisas, por total falta de espaço.

Ciência e Cultura – Como tem sido para os pesquisadores refazer a coleção de aranhas? Quanto já foi recuperado? O Instituto tem recebido doações?

Antonio Domingos Brescovit – A recuperação das coleções ainda não começou, pois não temos espaço para reorganizar o acervo. Isto só poderá ser feito com critério e de forma organizada, quando o novo prédio estiver pronto e com espaço nas novas salas de coleções.     A entrada de material novo não parou desde o incêndio, pois muito material de inventários e coletas de alunos e dos pesquisadores têm sido enviados ao Instituto, como antes do incêndio. Já doações de material de outras coleções, por outros curadores, ainda não chegaram. Mas, estamos esperando.

Ciência e Cultura – Quais as instituições detentoras das principais coleções de aranhas no Brasil atualmente? Qual o tamanho do acervo desses museus?

Antonio Domingos Brescovit – Os maiores acervos, depois do Instituto Butantan, são do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), do Museu Nacional do Rio de janeiro e da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul. Hoje temos mais de 400.000 exemplares nos acervos do Brasil, mas isto ainda é insignificante perto dos acervos norte-americanos e europeus.

Ciência e Cultura – Quantas espécies de aranhas da biodiversidade brasileira já são classificadas? Dessas, quantas são peçonhentas e de importância médica?

Antonio Domingos Brescovit – Até o final de 2010, tínhamos 3.203 espécies descritas de aranhas. Hoje já devemos ter cerca de 3.500 espécies. Dentro deste quadro, não temos nem 0,5% de espécies peçonhentas no Brasil. Podemos considerar apenas três grupos que podem causar acidentes graves: armadeiras do gênero Phoneutria, com destaque para P. nigriventer na região Sudeste e Sul do Brasil; aranhas-marrom do gênero Loxosceles, das quais se destacam L. gaucho, L. intermedia e L. laeta; e pelo menos duas espécies de gênero Latrodectus (viúvas-negras), mas, por se tratar de um gênero não revisado, não sabemos ainda o nome destas espécies.

Ciência e Cultura – Existe alguma estimativa sobre o número de espécies de aranhas que ainda não foram catalogadas no Brasil?

Antonio Domingos Brescovit – Pelo material estocado e o que existe descrito até o momento, posso dizer que ainda não atingimos 50% do conhecimento de nossa diversidade de aranhas.

Ciência e Cultura – Do ponto de vista geográfico, onde encontramos a maior diversidade de aranhas no Brasil?

Antonio Domingos Brescovit – Creio que a Mata Atlântica e na região amazônica, mas não posso afirmar, pois áreas como o Pantanal, cerrado, caatinga e o pampa ainda estão muito mal amostradas.

Ciência e Cultura – Quantas espécies de aranhas são descritas por ano no Brasil? Quais as últimas descobertas? Onde (regiões do país) foram registradas?

Antonio Domingos Brescovit – Creio que a média hoje fica entre 30-40 espécies ao ano, mas é só uma estimativa. As melhores descobertas ainda são de áreas pouco exploradas como a caatinga e áreas mais inóspitas da Amazônia, mas encontramos espécies novas até na região urbana de São Paulo, por incrível que pareça. Não tratando de bioma, podemos dizer que as aranhas que vivem no solo (serapilheira) são as menos estudadas e as que proporcionam mais novidades nos últimos anos.

Ciência e Cultura – Qual a espécie de aranha que o Sr. e a sua equipe descobriram, e que mais o surpreendeu, seja pelos hábitos ou características físicas?

Antonio Domingos Brescovit – Bom, a descoberta mais interessante e que tem causado mais efeito no grupo de pesquisa é um gênero novo da família Oonopidae com 17 espécies novas que estamos publicando no American Museum Novitates, um boletim do American Museum of Natural History de Nova Iorque. Faz parte de uma pesquisa mundial sobre esta família de aranhas e que deve ser publicado até o final do ano.

Todas as espécies têm modificações na região frontal das quelíceras e algumas são tão estranhas ou complexas que lembram o Predador (sim, aquele do filme de ficção científica) que apresenta aquelas modificações faciais sob a máscara. O gênero novo será chamado de Predatoroonops, em homenagem aos mais de 20 anos do filme e todas as espécies foram nominadas com algo relativo ao filme (participantes, apelidos dos participantes, locais de locação etc). Acho que vai ser interessante na mídia. Tem duas espécies que homenageiam o ator Arnold Schwarzenegger, apesar de ele estar meio em baixa no momento!

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