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Atualizado em 31 DE agosto DE 2017 ás 15:42

Cultura Surda na UFBA

Chamar a atenção para a comunidade deficiente auditiva, mostrando sua face lúdica e sua produção científica, foram os principais objetivos do Visual - I Semana da Arte e Cultura Surda, realizado entre os dias 22 e 25 de agosto pelo Departamento de Letras Vernáculas da Universidade Federal da Bahia (UFBA)

POR AMANDA DULTRA*
amandadultra@hotmail.com

A Universidade Federal da Bahia (UFBA) foi palco de um evento para desconstruir alguns dos mitos sobre a cultura surda por meio da promoção de apresentações artísticas e da produção acadêmica desenvolvida por e para a comunidade com deficiência auditiva. Trata-se do Visual – I Semana da Arte e Cultura Surda, realizado de 22 e 25 de agosto. O evento, realizado pelos professores do Departamento de Letras Vernáculas da UFBA João Ricardo Bispo de Jesus e Cíntia de Jesus Santos, aconteceu no auditório do Instituto de Biologia.

Segundo o professor Bispo, intérprete especializado na Língua brasileira de sinais (Libras), o objetivo central deste projeto significa um avanço no reconhecimento da cultura surda e dos indivíduos dessa comunidade sobretudo no âmbito acadêmico. “Visual tem por objetivo refletir sobre a cultura do povo surdo e sua experiência visual. O evento busca também fomentar a presença do surdo no espaço acadêmico e dar visibilidade, através de apresentações e participações, aos estudantes de Língua de Sinais na UFBA”, reforça.

Professora Intérprete de Libras Letícia Damasceno / Foto: Giovanna Hemerly

Visibilidade na UFBA - Ao longo dos seus quatro dias de realização, o Visual intercalou espetáculos e palestras – esses unidos pela vontade de reforçar a necessidade de discutir e reconhecer a cultura surda. Segundo João Bispo, as apresentações visam pôr os surdos como protagonistas. “Elaboramos a programação pensando no surdo e na Língua de Sinais. No surdo, para que ele seja o protagonista nesse momento e não mais o ouvinte, fazer com ele se expresse, tenha a oportunidade de dizer, na universidade, o que pensa. É de suma importância que os alunos que estão aprendendo língua de sinais tenham o contato com os surdos (praticando o que aprenderam em sala), por isso, a programação contempla a participação dos alunos como monitores, palestrantes e apresentação cultural.”

Esse protagonismo e mescla entre tipos de apresentações pôde ser notado especialmente na tarde do último dia do evento. A abertura foi de responsabilidade dos alunos da Associação Educacional Sons do Silêncio (AESOS), os quais realizaram três espetáculos centrados na temática surda. Em seguida, duas palestras: a primeira da professora Doutora em Fonética e Linguística Elizabeth Teixeira e sobre a jornada de Libras como um departamento na UFBA; a segunda da mestra em Linguística pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Shirley Vilhalva, que falou sobre a cultura visual e o indivíduo índio surdo. O encerramento se deu após quase uma hora de perguntas e respostas, duas horas após o horário estimado para esse. Toda a exibição tinha tradução simultânea de Português para Libras e vice-versa.

A AESOS é uma instituição com foco na inclusão social e na articulação em ações de defesa a deficientes auditivos. Em sua missão de ofertar desenvoltura cultural como maneira de integração à sociedade, a AESOS preparou três atrações: duas peças e uma mostragem de dança. O primeiro dos espetáculos foi do teatro infanto-juvenil, “Um Mistério a Resolver: O Mistério das Bocas Mexedeiras”, no qual a sua protagonista, Ana, por não ter audição, não compreendia o porquê do movimento das bocas. O segundo foi a apresentação de forró da dupla Carolina e Vítor, superando a necessidade do som para fazer uso do ritmo. Por fim, um sketch de comédia ambientado num ponto de ônibus por três personagens sem nome com tons do pastelão.

As professoras expuseram valiosos pontos de vista, embora a partir de perspectivas diferentes. Teixeira apresentou a história de Libras na UFBA, celebrando os 11 anos de existência, lançando luz ao programa e seus efeitos – isto é, a sua abertura a uma nova gama de discussões; o ensino de Libras a todas as licenciaturas da UFBA; a existência de seis professores efetivos e uma substituta. Vilhalva, por outro lado, teve uma exibição mais intimista uma vez que ela também é deficiente auditiva. Sua abordagem sobre cultura e identidades surdas – particularmente a indígena – foi um dos momentos mais esperados da semana e muito celebrado por todos os espectadores. O evento terminou em ovação polvorosa.

Luis Felipe sinaliza seu nome conforme aprendeu esta semana/Foto: Giovanna Hemerly

A Cultura Surda - Ao longo da História da comunicação e da linguagem, o indivíduo surdo precisou se adaptar a um mundo contemplado pela oralidade. Na Idade Média, os deficientes eram subjugados, excluídos dos cânticos e da maior parte das comunidades. Os gestos eventualmente criaram um sentido em si próprio e esses símbolos eventualmente compuseram uma língua rica. No Brasil, a Língua brasileira de sinais (Libras) foi legalizada com a Lei 10.436, de 24 de abril de 2002 e somente então regulamentações que garantissem a sua circulação no território nacional puderam ser estabelecidas.

A língua, entretanto, não surgiu aí: toda uma cultura, isto é, um complexo de costumes e hábitos sociais, surda a acompanha. Segundo a doutora Gladis Perlin, em seu artigo “O Lugar da Cultura Surda”, “as identidades surdas são construídas dentro das representações possíveis da cultura surda, elas moldam-se de acordo com maior ou menor receptividade cultural assumida pelo sujeito. E dentro dessa receptividade cultural, também surge aquela luta política ou consciência oposicional pela qual o indivíduo representa a si mesmo, se defende da homogeneização, dos aspectos que o tornam corpo menos habitável, da sensação de invalidez, de inclusão entre os deficientes, de menos valia social”.

É de suma importância o reconhecimento e a valorização dessa comunidade à diversidade existente no Brasil: segundo a pesquisa censitária do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os surdos no país somam 9.717.319. Isso significaria que por volta de 10 % da população não seria contemplada.

Daqui para frente - VISUAL terminou suas atividades com uma nota de esperança e continuidade no ar: era evidente o desejo de dar prosseguimento aos debates levantados. O professor João Bispo realizou um encerramento emocionado: “Foi muito boa essa interação aqui e é importante pensar no que [Professora Shirley] falou: na responsabilidade que todos nós temos e levamos para o mundo”.

Quando perguntado para onde intencionava levar as discussões ali acumuladas, Bispo listou vários caminhos. Dentre eles,  o mais importante é “questionar o modelo atual de seleção. Um evento como esse possibilita o vislumbre de novas áreas de pesquisas, obedecendo um importante pilar da universidade. Então, desenvolveremos mais pesquisas na área da língua de sinais e dos estudos culturais surdos. Devemos também ampliar a extensão universitária, fazer com que toda essa vivência e conteúdo nesses últimos dias possam ser refletidos para a sociedade”, finalizou.

* Estudante de jornalismo da Faculdade de Comunicação e repórter da Agência de Notícias em CT&I – Ciência e Cultura UFBA

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