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Atualizado em 12 DE fevereiro DE 2012 ás 23:15

Doença de Chagas: novas perspectivas de tratamento

Em um período de três a quatro anos foram encontrados 750 barbeiros em Salvador. Destes, cerca de 350 puderam ser analisados e em uma quantidade significativa, algo entre 150 e 170, foram constatadas a infecção por Trypanosoma cruzi

POR JANE EVANGELISTA
janeevangelista@gmail.com

Há 36 anos morando em Salvador, Diva Santos, natural de Amargosa-BA, começou a sentir os sintomas da doença de Chagas em 1986. Alegre, ao lado da filha e do neto que ainda não completara um ano de vida, a simpática senhora de 60 anos, mostra os remédios que toma, fazendo questão de enfatizar que não esquece nenhum.

Como milhares de brasileiros que sofrem do mal de chagas, dona Diva demorou a ser diagnosticada. Sem saber o momento exato em que contraiu a doença, a sorridente e franzina senhora relembra à época em que morava em Amargosa, onde também trabalhava como cozinheira, ressaltando que a rotina mudou após a doença. “Parei de trabalhar e ia de duas a três vezes por mês à emergência”, diz ela.  Há 12 anos, em um dos momentos que sua saúde estava bastante debilitada, um de seus familiares morreu de tal mal assim, a cozinheira desconfiou que pudesse sofrer da mesma enfermidade e resolveu fazer os exames que confirmaram seus pensamentos.

Estima-se que no mundo existam 16 milhões de pessoas acometidas pela enfermidade. No Brasil, os números giram em torno de dois e três milhões de pessoas com o diagnóstico de doença de Chagas. Destes, cerca de 600 mil apresentam complicações cardíacas ou digestivas e tais circunstâncias levam, por ano, cinco mil pessoas a óbito.

A doença de Chagas também conhecida como Mal de Chagas, enfermidade que acomete as Américas desde o sul da Argentina até o sul dos Estados Unidos, era inicialmente uma patologia exclusiva aos animais silvestres, porém com os processos de desmatamento para a ocupação humana os triatomíneos, popularmente conhecidos como barbeiros, foram desalojados e passaram a morar com o Homem. Sem suas fontes de alimentação preferenciais, mamíferos e aves silvestres, os barbeiros passaram a se alimentar de sangue humano.

Para Gilmar Ribeiro, biólogo responsável pelo insetário do Centro de Pesquisas Gonçalo Moniz/ Fundação Oswaldo Cruz/BA, o que ocorria na maioria das vezes na zona rural tem ocorrido também nos grandes centros urbanos, “pessoas desmatando áreas previamente de mata primária ou remanescente e ocupando essas regiões com habitação. E isso as aproxima da comunidade de triatomíneos”.

Controle dos triatomíneos em Salvador e no interior da Bahia

Em 2009 ocorreu, em Salvador, um caso que ilustra bem esta proximidade entre homens e barbeiros. O condomínio de luxo, Alphaville, construído em uma área de desmatamento recente, ganhou destaque nas capas dos jornais locais, pois foram encontrados barbeiros em seus apartamentos.

A Paralela, local onde está situado o condomínio, e os bairros vizinhos, como Bairro da Paz, Mussurunga, São Marcos, entre outros são lugares que através da ação do homem tiveram seu ecossistema modificado. O desmatamento e a construção de habitações fizeram com que os barbeiros modificassem seus hábitos alimentares e incluíssem o sangue humano em sua dieta.

Os bairros circunvizinhos ao condomínio têm os mesmos problemas com os barbeiros, porém por se tratar de bairros pobres, nunca houve a mesma repercussão nos meios de comunicação. Segundo Ribeiro, “a maior preocupação não é com o Alphaville, com os condomínios da Paralela que estão em uma região desmatada, já que não há condições, de imediato, dos triatomíneos se domiciliarem nestas casas, pois têm um asseio muito bom e a população é muito bem informada. A maior preocupação é com os bairros circunvizinhos àquela área. Todos os bairros da região da Paralela que estão associados à remanescente de mata, principalmente, os mais pobres, porque naquela área há a possibilidade de colonização das casas”.

No período de três a quatro anos foram encontrados 750 barbeiros na capital baiana. Destes, cerca de 350 puderam ser analisados e em uma quantidade significativa, algo entre 150 e 170, foram constatadas a infecção por Trypanosoma cruzi. Os barbeiros encontrados nos domicílios ou próximos às casas devem ser encaminhados aos Postos de Informação dos Triatomíneos – PIT. Feita a notificação nos PITS os barbeiros são levados aos laboratórios da Fiocruz/BA para serem analisados. Além disso, um agente institucional vai aos domicílios onde os insetos são encontrados, pesquisar, capturar os barbeiros e borrifar agentes químicos para exterminá-los.

O barbeiro, infectado com o Trypanosoma cruzi, transmite a doença de Chagas ao homem

Esta ação de monitoramento do inseto é conhecida como vigilância passiva, na qual se espera que o cidadão tenha a iniciativa de capturar o inseto e notificar aos órgãos competentes. Esta forma de monitoramento é realizada em Salvador e em mais 101 municípios considerados de baixo risco. Nos 219 municípios considerados de médio risco e nos 97 de alto risco soma-se à ação de vigilância passiva a vigilância ativa, nesta os agentes institucionais desenvolvem os mesmos mecanismos que na vigilância passiva, porém a diferença ocorre pela periodicidade. Enquanto nos municípios de baixo risco a ação é eventual, nos municípios de médio risco a atividade é desenvolvida bianualmente e nos municípios de alto risco a vigilância ocorre anualmente.

Além destas ações de prevenção da doença de Chagas, Jorge Mendonça, coordenador do programa de controle da doença de Chagas na Bahia, relata que os municípios de alto risco foram contemplados com recursos do PAC/Funasa para terem as habitações melhoradas. E o governo do Estado em parceria com a Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Conder), utilizando recursos da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) está fazendo o mesmo nos municípios de médio risco. Habitações precárias, casas sem reboco, casas de taipa e casas de pau-a-pique são lugares que oferecem ótimas condições para os barbeiros se alojarem.

Na Bahia, os casos antigos de doença de Chagas, estão concentrados no Recôncavo e nas regiões Norte e Oeste. Em 2006, foram registrados 13 casos da doença na fase inicial e dois óbitos ainda nesta fase. Neste episódio, os indivíduos foram infectados pela ingestão do parasito no caldo de cana. Só depois de três anos, em 2009, foi registrado um novo caso de contágio da doença em Ilhéus.

Tanto tempo sem registrar novos casos da doença leva Mendonça a afirmar que: “ A forma de transmissão vetorial (que ocorre após a picada, através das fezes do barbeiro contaminado) está sobre controle”.

Todo novo caso de contágio deve obrigatoriamente ser notificado ao Sistema de Notificação de Agravo – Sinan, pois a partir dos dados coletados é desenvolvida uma investigação epidemiológica que determina a forma de transmissão da doença.

Dos triatomíneos infectados à doença de Chagas

Contaminado com o Trypanosoma cruzi, parasito ingerido junto com o sangue dos mamíferos e aves silvestres, o barbeiro infecta o homem. Alojado no intestino do triatomíneo, que após se alimentar defeca na presa, o Trypanosoma cruzi expelido penetra no organismo humano através da pele e mucosas. Os parasitos atingem a circulação e invadem as células dos vários tecidos humanos, nos quais se reproduzem rápida e intensamente.

A porta de entrada do parasito, local da picada do barbeiro, assemelha-se a um furúnculo ou uma mancha avermelhada, porém não expele pus. O local na maioria das vezes fica dolorido. Além desta característica, a pessoa infectada tem febre baixa e contínua, pode ter falta de ar, dor abdominal, falta de apetite, aumento do coração, inchaço na face e no corpo inteiro. Estes e outros sintomas aparecem entre quatro e 15 dias (período de incubação da doença) após a picada. Esta etapa da doença conhecida como fase aguda pode passar despercebida, principalmente nos adultos, pode ser confundida com uma gripe, por isso em áreas onde há a incidência de barbeiros é necessário pensar imediatamente em doença de Chagas, pois quanto mais cedo for iniciado o tratamento maiores as chances de cura total.

Após a fase aguda, infecção que pode levar a morte, o indivíduo passa para a fase crônica da doença. Nesta etapa, o Trypanosoma cruzi sai da corrente sanguínea e vai para as células dos tecidos (coração, fígado, sistema nervoso ou células branca do sangue), causando estragos irreversíveis nestes órgãos. Assim, a doença se manifesta atingindo o coração, que aumenta de tamanho (cardiomegalia), tem seus batimentos desordenados (arritmias) e perde paulatinamente sua capacidade de bombeamento, o cansaço fácil é uma das consequências mais visíveis destas complicações. O aparelho digestivo também é afetado, com o aumento do esôfago e do intestino grosso, gerando engasgos, prisão de ventre entre outros.

Além das fases crônicas que se manifestam no coração e no aparelho digestivo, há também a fase crônica indeterminada que para Roque Aras, coordenador do Ambulatório de doença de Chagas, atinge a maioria das pessoas infectadas. Nesta fase, segundo o Cardiologista, “a pessoa é positiva, e ela não desenvolve a doença, ela pode passar a vida toda deste jeito, e pode em algum momento desenvolver a doença”. Na etapa indeterminada, em que a infecção permanece silenciosa, o mal de chagas causa leves alterações no coração e entra em estágio de letargia que pode ser modificado anos mais tarde.

Tratamento – Durante anos, os pacientes com diagnóstico positivo para doença de Chagas na fase aguda eram os únicos tratados com a medicação específica. Os indivíduos que passara à fase crônica da doença faziam apenas tratamentos paliativos, específicos para os danos causados pela enfermidade: tratamentos de coração, do intestino, entre outros. Porém, hoje já existem estudos que comprovam a eficiência do tratamento retardando ou mesmo evitando a evolução da doença. Segundo Marcos Vannier, pesquisador do Laboratório de Biomorfologia Parasitária da Fiocruz/BA, “as pessoas deveriam fazer o tratamento; muitas vezes não fazem. Hoje, uma iniciativa da Organização Mundial de Saúde (OMS) chamada Drugs for Disease Negligence , drogas para doenças negligenciadas, está defendendo que mesmo pacientes na fase crônica devam fazer o tratamento, porque antigamente se dizia que não precisava fazer. A própria Fundação Oswaldo Cruz têm apoiado essa medida de fazer o tratamento nos pacientes na fase crônica, pois é muito importante, mas muitos lugares ainda não fazem. É praxe médica não fazer o tratamento em pacientes na fase crônica, o que é um erro”, orienta.

Passados 100 anos da descoberta da doença de Chagas, os pacientes chagásicos têm apenas uma opção de medicamento, o Benznidazol. Unânime entre os pesquisadores e médicos é a afirmação de que a indústria farmacêutica não tem interesse em fabricar novas drogas para a doença de Chagas, pois é uma enfermidade que acomete os menos favorecidos. Segundo Aras, “enquanto a doença de Chagas tem 100 anos e a AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) tem 30 anos, a AIDS tem centenas de tratamentos, já a doença de Chagas tem apenas um. O que acontece é que a doença de Chagas atinge grupos populacionais relacionados à pobreza que não consegue ter uma capacidade de fazer lobby e obter o interesse da indústria farmacêutica de produzir novos medicamentos”.

Apesar de ser o medicamento mais indicado para o tratamento da doença de chagas, o Benznidazol ainda não é o ideal. O fármaco não possui eficácia para curar um doente na fase crônica, além disso, é muito tóxico e possui sérios efeitos colaterais que vão desde náuseas até dormência dos braços e pernas. Produzido pelo governo, o remédio é distribuído gratuitamente, porém não há muita disponibilidade pelo alto custo de produção. Outra deficiência deste tratamento é a falta de formulação específica para menores de 12 anos.

Pesquisas para a descoberta de novas drogas

Diante da escassez de drogas mais eficazes para o tratamento da doença de Chagas em todas as fases de manifestação, os pesquisadores de todo o mundo têm trabalhado para mudar a situação atual, de negligência desta enfermidade. No Centro de Pesquisas Gonçalo Moniz – Ficruz/BA, por exemplo, a pesquisa para descoberta de novas drogas tem avançado. Eles já detêm a patente de um remédio que nos testes pré-clínicos (testes em camundongos) aumentou 600% à sobrevivência dos animais. A fase subsequente de testes, mais cara e complexa, é o próximo desafio. Apesar da falta de interesse das indústrias farmacêuticas em relação à população que este tipo de medicamento atende. Segundo Vannier, “no Brasil seria diferente, porque o Brasil é um país rico com um povo pobre, então a gente tem dinheiro para pagar o tratamento destas doenças”

As pesquisas na Fiocruz/BA englobam estudos moleculares que isolam o DNA do tripanossomo, do barbeiro e do sangue encontrado no intestino deste inseto. O intuito é descobrir tanto a linhagem do trypanosoma cruzi, para tentar produzir drogas mais específicas, e saber de qual animal o barbeiro está se alimentando na região em que foi encontrado. Alimentando-se de aves e cachorros, o inseto é peridomiciliado, ou seja, vive às cercanias das casas. Alimentando-se de sangue humano, o barbeiro está domiciliado nas casas. Para Ribeiro, saber tais informações ajudam não só na formulação de novas drogas, mas também para adequar o tratamento ao tipo de parasito, por exemplo, para um parasito mais resistente seriam usadas maiores doses da medicação e por um período maior de tempo ou mesmo a combinação de duas drogas.

O objetivo das pesquisas é encontrar um tratamento ou uma droga que produza a cura estéril, ou seja, que elimina definitivamente os parasitos do organismo. Segundo Vannier, esta é uma tarefa difícil, pois o parasito se esconde dentro das células. A droga ao ser ingerida ou aplicada tem de atravessar o tubo digestivo, ser absorvida, entrar na circulação sanguínea (em volume considerável) e penetrar a célula.  Na maioria das vezes o paciente tem uma cura clínica, o indivíduo clinicamente apresenta-se bem, porém anos depois a doença volta a se manifestar.  De acordo com o pesquisador “O que acontece é que a maior parte das drogas deixa uma pequena carga parasitária, ela reduz drasticamente o número de parasitos do sangue, mas não consegue eliminar.”

Apesar de não ser o medicamento ideal o Benznidazol ainda é o tratamento indicado para os chagásicos na forma aguda ou crônica. Podendo curar os primeiros e evitando que os segundos evoluam e tenham a saúde ainda mais debilitada. O chagásico pode ter uma melhor qualidade de vida, não só tratando a doença de Chagas, mas também tendo um acompanhamento médico para tratar as lesões causadas pelo Trypanosoma cruzi. Dona Diva, por exemplo, após iniciar o acompanhamento médico deixou de ser internada e voltou aos poucos a realizar algumas atividades de casa, antes impensáveis. Com um sorriso e uma satisfação no rosto ela declara “Antes não fazia nada, não agüentava, vivia cansada direto.”

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6 comentários para Doença de Chagas: novas perspectivas de tratamento

  1. Viani PImenta Braga disse:

    Senhores(as). Sou goiano de nascimento, moro no Sul do Pará há 30 anos, sou radialista, pai de três filhos. Descobri-me chagásico em 2007. Desde então foi só peregrinação, angústia e incerteza. Fiquei depressivo. Gostaria de saber sobre os teste em Cochabamba, Bolívia, com o E1224, ravuconazol, se já temos uma luz no fim deste túnel. Ficarei muito grato pela informação. Abraço.

  2. José Alves Pinto disse:

    Presados senhores,
    Sou portador do mal de chagas, descobri a doença em 1989 doando sangue na USP. Fui encaminhado para o hospital das clinicas, fiz alguns exames e nunca mais voltei a procurar tratamento relacionado a tal doença.
    Eu vivo em São Paulo e quero procurar tratamento, qual é o hospital mais indicado para esse tratamento?
    Grato: José Alves

  3. Francisco Abreu disse:

    Senhores, senhoras e senhoritas, sou baiano mas moro em Goiânia. Descobri que sou portador da doença de Chagas em 1990 em uma doação de sangue. Fiz exames no Hospital das Clinicas e deu positivo, faço acompanhamento desde então por ter acometido o músculo cardíaco, tenho arritimia. Estou terminando o curso de Farmácia e meu tema de TCC é sobre “Doença de Chagas, gostaria de receber artigos sobre o assunto. Aproveitando gostaria de saber sobre o medicamento que possivelmente possa curar a doença de Chagas na sua fase crônica. Desde já agradeço, abraços à gente querida.

  4. Terezinha Marinalda da Costa Azevedo disse:

    Minha família quase todos são portadores da doença de chagas e estamos passando por uma angustia muito grande porque no Estado do Rio grande do Norte o medicamento esta em falta estou desesperada alguém pode me ajudar.como faço pra conseguir em outro lugar.

  5. JOÃO BATISTA MARTINS disse:

    hospital samaritano, em São Paulo, detectou doença de chagas no meu sangue. Quero tratar para sobrevier um pouco mais. Como proceder?

  6. SILENE ALVES disse:

    Olá, meu pai tem 77 anos e infelizmente tem a doença de chagas, a qual descobriu a mais de 12 anos..faz tratamento no Instituto Dante Pazzanese um lugar maravilhoso o qual cuida ate hoje.. mas em casa ele fica gemendo mas não fala o que é… muito esteanho, e também nao consegue mais dormir deitado… tem alguma dica de como melhorar esta angustia??Ficarei muito feliz de uma resposta. Obrigada

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